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História

Monografia “AS CIDADES BRASILEIRAS E A FOTOGRAFIA: REGISTROS E CONSTRUÇÕES HISTORIOGRÁFICAS”

 

Esta obra possui autoria plena, sendo permitido seu uso educacional unicamente como referêncial teórico desde que fornecidos os devidos créditos ao seu mentor intelectual.

AUTOR: MAUX, E.

ANO: 2008

INTRODUÇÃO

Este trabalho monográfico tem como objetivo principal realizar uma revisão bibliográfica acerca do uso da fotografia no processo de registro e reconstrução da memória histórica das cidades brasileiras.

No que tange a escolha de uma metodologia de pesquisa, levamos em conta que a importância dessa opção se encontra fundamentalmente nas possibilidades oferecidas por cada um dos métodos conhecidos, para extrair-se de cada um deles a necessária lucidez para a consecução dos resultados esperados.

Diante dessa constatação, dadas as características do estudo proposto, mesmo não tendo sido previsível todas as variáveis que possam surgir da realização da pesquisa, maiores possibilidades são oferecidas pela pesquisa exploratória e pela pesquisa explicativa, ambas capazes de, respectivamente, familiarizar com o tema, o problemas através da bibliografia pertinente e, num segundo momento, avaliar as hipóteses levantadas através da observação e da comparação dos pressupostos oferecidos pela bibliografia colhida.

O método proposto é o dedutivo, porque baseado na consideração de que avaliando racionalmente os subsídios aos quais se tem acesso acerca do tema, é possível elaborar explicações e, finalmente, concluir com uma formulação conseqüente (GIL, 2007).

Todo o desenvolvimento da pesquisa teve como embasamento o levantamento bibliográfico, o qual selecionamos, previamente, as obras consideradas relevantes para a compreensão do tema e para a realização do contraponto necessário entre os postulados porventura existentes.

Esse levantamento foi seletivo e cuidadoso, tendo em vista a relevância do estudo proposto, buscando escolher um material representativo – não apenas de diferentes pontos de vista teóricos, como também dos diferentes níveis de exposição.

Seqüencialmente, procedemos à leitura da bibliografia coletada, buscando subsídios para compreender e aprofundar o tema, relacionando-o às hipóteses inicialmente evocadas e o problema Proposto, para proceder-se à análise da pertinência desses dados com os objetivos do estudo.

Nessa direção, o capítulo primeiro comportou um breve histórico das cidades medievais às cidades modernas: rupturas e permanências. Sempre considerando a importância da imagem na reconstrução da memória de uma cidade.

No capítulo segundo foi estabelecido um estudo acerca da cidade em si, ou seja, a cidade e sua paisagem, considerando suas determinantes estruturais e locais; a concepção de cidade-memória e cidade-documento; as perspectivas dos espaços urbanos; suas dimensões econômicas, psicológicas e culturais; até chegarmos na urbanização brasileira, esclarecendo os processos pelos quais essa passou.

No capítulo terceiro a ênfase recaiu sobre a importância do uso da fotografia como forma de registrar e documentar os processos históricos que envolvem a memória da cidade. Tudo isso, considerando que a imagem é uma fonte fundamental no trabalho de reconstrução de uma memória histórica. Nessa perspectiva, realizarmos um estudo sobre a fotografia e as imagens da cidade. Tecendo considerações sobre a as imagens como meio de comunicação social, abordando a importância da fotografia como fonte documental: sentidos e significados, e a fotografia e as cidades brasileiras. Sempre considerando a relação espaço urbano/fotografia, para a reconstrução da memória social.

CAPÍTULO I  – BREVE HISTÓRICO DAS CIDADES MEDIEVAIS ÀS CIDADES MODERNAS: RUPTURAS E PERMANÊNCIAS

Durante a Alta Idade Média, do século V ao X, as cidades possuíam uma função político-administrativa ou religiosa. Tanto na Antiguidade quanto na Idade Média, a base da economia era a atividade agrícola. Em torno do campo se estruturava a organização social e, conseqüentemente, a organização do espaço geográfico.

O processo de formação das cidades medievais ocorreu em virtude de um reativamento do comércio de longo curso, por volta do século XI. Ela surge a partir do momento em que a insegurança européia em relação às invasões bárbaras havia diminuído em razão da reorganização de várias monarquias européias que favoreceram uma maior estabilidade econômica e social, somado a existência de um excedente de produtos rurais e de população. Assim, as cidades tornavam centros produtores e abriram perspectivas de dias melhores aos servos e camponeses, estimulando as fugas do campo.

Nessa direção, a cidade medieval começou a se estruturar em torno de muralhas compostas de portas, por onde entravam e saiam mercadorias, homens, imigrantes, camponeses, mercadores, soldados e religiosos. Jacques Lê Goff, um historiador medievalista, assim define as cidades medievais:

Campo fechado. A muralha a define. Penetra-se nela por portas e nela caminha por ruas infernais que, felizmente desembocam em praças paradisíacas. Ela é guarnecida de torres, torres das igrejas, das casas dos ricos e da muralha que a cerca. Lugar de cobiça, a cidade aspira à segurança. Seus habitantes fecham suas casas a chave, cuidadosamente, e o roubo é severamente reprimido. A cidade, bela e rica, é também fonte de idealização: a de uma convivência harmoniosa entre as classes. A misericórdia e a caridade se impõem como deveres que se exercem nos asilos [...]. O citadino deve ser melhor cristão que o camponês. Mas aos doentes, como os leprosos que não podem mais trabalhar, causam medo, e essas estruturas de abrigo não demoram a tornar-se estruturas de aprisionamento de exclusão. As ordens mendicantes denunciam as desigualdades provenientes dessa organização social urbana e desenvolvem um novo ideal: o bem comum. Mas elas não podem impedir a multiplicação dos marginais no fim da Idade Média (LE GOFF, 1998, p. 71).

À exemplo dessa citação podemos ver nas imagens abaixo. Imagens construídas por meio da pintura, pois, como na época não havia o recurso fotográfico, o meio utilizado por integrantes da cidade no período para registrar a história dessas, foi a pintura.

Avignon [1]

Figura 01

Fonte: LE GOFF, 1998, p. 119

 

 

 

 

 

Cidade na Idade Média[2]

 

Figura 02

Fonte: LE GOFF, 1998, p. 12

Mediante tais imagens podemos afirmar o quanto esta é importante na construção da memória de uma cidade. Assim, se mesmo uma pintura dotada de técnicas primitivas é possível de fornecer tal possibilidade, podemos então conjecturar a imensa contribuição da fotografia somada às tecnologias digitais nesse trabalho de reconstrução da memória história desta.

Voltando ao contexto histórico, mas ainda considerando as imagens acima na explicação seguinte, podemos afirmar que, o arquiteto Joaquim de Almeida Mattos, em sua obra “Vida e crescimento das cidades” demonstra que as primeiras cidades medievais apresentavam:

[...] ruas tortuosas, não só por sua formação em grande parte lenta e parcelada, como também por motivos militares e estéticos: para dificultar a penetração de invasores, e para limitar a perspectiva, dirigindo-a para ângulos de melhores qualidades artísticas. A ausência do tráfego pesado e o congestionamento da cidade entre muralhas resultavam em ruas de largura mínima, alargando-se para proporcionar vista aos melhores prédios, e onde era provável maior confluência de pedestres. Esse alargamento atingia ao limite nas praças, nas quais se reuniam os edifícios mais ricos, inclusive a catedral, que dominava pelo tamanho e pela majestade, simbolizando o espírito místico da época e os grandes recursos materiais da Igreja [...] (MATTOS, 1952, p. 29).

O aceleramento do processo de desenvolvimento das cidades medievais possibilitou a emergência de uma nova hierarquia social, onde a posição e a situação dos indivíduos eram baseadas, em essência, no valor monetário e no poder que este proporcionava. Essa forma hierárquica de estrutura social urbana deixava escapar uma grande parcela de pobres e marginalizados, que a cidade tende cada vez mais a excluir.

Esses pobres formavam uma parte considerável da população urbana e a cada dia seu número aumentava mais, em virtude de estarem suscetíveis às novas leis do mercado. A ameaça de fome, a esses indivíduos era uma constante. O processo de pauperização da população urbana fez aumentar numericamente a quantidade de indivíduos marginais[3], crescendo paralelamente a essa, a criminalidade. Para Jacques Lê Goff, o crescimento da criminalidade se deve ao fato de que as cidades medievais ao aglutinarem pessoas entraram em crise, e passaram a ter outros valores sociais:

Se o mundo da vagabundagem e do crime crescem no século XIV, isso acontece em primeiro lugar, obviamente, porque a crise desorganiza a sociedade, mas também porque a sociedade desenvolve novas atitudes para com o pobre. Mendigar torna-se, para um pobre válido, um crime. A mendicância, até então reprovada, passa a ser reprimida. Num mundo em que o trabalho é instável, em que os artesãos vão de cidade em cidade com uma mobilidade desconcertante, o trabalhador não qualificado, que é quase obrigatoriamente, dada a estrutura do mercado urbano de mão-de-obra , um desempregado intermitente, torna-se por isso mesmo e pelo modo como é visto pela sociedade, um malfeitor. A maioria dos que cometem delitos ou crimes na Paris do século XIV são imigrantes recentes (LE GOFF, 1992, p.176).

Para Bronislaw Geremek, o contexto das cidades medievais até as cidades modernas está intimamente ligados ao processo de marginalização dos indivíduos que estavam suscetíveis às modificações do mercado. Esse processo se acirra com a transição do feudalismo para o capitalismo:

Quase sempre a pobreza se apresentava sobre forma latente,e às vezes, como no caso do cristianismo medieval, tornava-se uma escolha voluntária e publicamente manifesta, um caminho para a perfeição e a salvação, sua existência esta ligada sobretudo às cidades, porque só as aglomerações humanas maiores podem garantir-lhes um modo de vida estável, sem a necessidade de incessantes peregrinações. (…) O pauperismo como fenômeno social é resultado dos processos de empobrecimento e rebaixamento de classe de vastos grupos da  população (GEREMEK, 1995,  p. 20).

 

Grosso modo, entende-se que as cidades da Idade Média aparecem como aglomerações humanas em transformação constante, locais onde realizam as experiências coletivas do viver e onde os pobres, indigentes, cada vez mais, passam a se concentrar em busca de meios de sobrevivência.

As cidades européias, do inicio da era moderna, desenvolveram-se de acordo com suas particularidades, e não de forma uniforme. A sua estrutura se sobrepunha às estruturas feudais, as estratificações sociais e arquitetônicas. A classe emergente desse período, a burguesia, alia se à nobreza e passa a presenteá-la com suntuosos palácios e edificações que realçava o poder do rei. Desse modo, as cidades passaram a refletir profundamente a influência desses aspectos políticos.

Para Joaquim de Almeida Mattos, esse processo teve significados políticos e sociais para o processo de urbanização: Politicamente era um salto para trás, rumo aos faraós; socialmente, mais um fôsso separando a nobreza sinecurista do povo espoliado, mais um símbolo de provocação à classe burguesa, tornada revolucionária. Urbanisticamente, a megalomania barroca (MATTOS, 1952, p. 30).

A Revolução Francesa é um grande marco de mudanças das cidades. As transformações políticas, por ela gerada, inferiram nos aspectos econômicos, mas principalmente nos sociais. Consolidou o Estado Burguês e assentou a economia em bases liberais, modificando radicalmente as relações sociais.

Quando a nobreza possui não somente privilégios mas também poderes, quando governa e administra, seus direitos particulares podem ser ao mesmo tempo, maiores e menos visíveis. Nos tempos feudais considerava-se a nobreza mais ou menos como consideramos hoje o governo: agüentavam os encargos que impunha tendo me vista as garantias que dava. Os nobres tinham privilégios constrangedores, possuíam direitos onerosos, mas garantiam a ordem pública, faziam a justiça, mandavam executar as leis, socorriam o fraco, dirigiam os negócios comuns. À medida que a nobreza deixa de fazer estas coisas, o peso de seus privilégios torna-se maior e sua existência acaba incompreensível (TOCQUEVILLE, 1997, p. 75).

Em suma, a cidade feudal caracterizava-se pela concentração entre os muros e construções em um plano conjunto. A sua evolução era lenta, o que permitia seu planejamento antecipado e detalhado, objetivando criar a cidade como obra de arte (MATTOS, 1952, p.52).

Com o advento do mundo moderno houve, além de uma revalorização social, o parcelamento das propriedades, de forma desordenada, momento em que desordenadamente, também, cresciam as cidades, dotadas cada vez mais da constituição de casas e edifícios irregulares:

[...] a extinção do feudalismo destruiu também a unidade arquitetônica. Cada novo proprietário levantava construções a seu bel-prazer, completamente à revelia do ambiente, sem a menor correlação com as unidades vizinhas. Era preciso construir tanto e tão depressa quanto o exigia o crescimento urbano, e esse crescimento, era cada vez mais rápido. O resultado lógico foi o caos arquitetônico. A cidade burguesa surgia heterogênea e desordenada, espelhando o regime nascente: vigoroso e produtivo, individualista e inculto (MATTOS, 1952, p. 52).

Mas foi somente com a Revolução Industrial, no século XVIII, que as cidades se tornaram os principais pólos da economia. O desenvolvimento da indústria atraiu um número ainda maior de pessoas para as cidades, a que gerou o processo de urbanização, ou seja, a população urbana foi pouco a pouco se tornando maior que a população rural.

Como espaço de concentração de capital e riqueza a cidade passou também a significar grande concentração de pessoas. A revolução dos meios de produção tornou indispensável uma profunda modificação nas condições gerais do processo social de produção, ou seja, nos meios de comunicação e transporte, estradas de ferro e telégrafos, causaram um grande impacto sobre a cidade, que começaram a se estender ao longo das margens ferroviárias:

A presença das fábricas subverte a ordem urbana, deteriorando rapidamente as condições de vida dos moradores da cidade. A crescente densidade de edifícios, a redução da área verde e a poluição dos rios resultaram de uma apropriação predatória do espaço urbano, com índices alarmantes de insalubridade, o que se refletiu nas taxas de mortalidade da população (KRAJEWSKI, 2000, p. 120).

No Brasil, esse processo se deu no século XIX. Os fatores que contribuíram foram à Independência política do país, a construção de ferrovias, o fim da escravidão e a migração de europeus, em grande medida, europeus e asiáticos. Entretanto, foi somente na década de 1940 que o país lançou as bases do processo de urbanização. Como nos países desenvolvidos, a urbanização brasileira ocorreu como resultado da modernização da economia: instalação de indústrias, expansão do trabalho assalariado e ampliação do mercado consumidor.

No Brasil, o processo de urbanização ocorreu de maneira muito rápida. Em 1940 cerca de 70% da população ainda vivia no campo. Apenas trinta anos depois, a população urbana já era a maioria total do país, alcançando a cifra de 56%. Hoje ela corresponde a mais de 80% do total da população (IBGE).

Para tanto, foi fundamental a atuação do Estado brasileiro, como principal agente da modernização da economia e dos centros urbanos. Com o objetivo de expandir a industrialização a partir dos anos de 1960, o governo inicia uma política nitidamente voltada para a urbanização do país. Investimentos públicos melhoraram a infra-estrutura urbana, com vias de circulação e sistema de transporte e comunicação, a ampliação do número de cidades médias e pequenas. Nesse contexto, as cidades médias são pensadas para servir o centro regional, ou seja, ela tem funções mais numerosas e variadas, objetivando atender aos habitantes das pequenas cidades próximas.

Segundo a literatura especializada, o espaço urbano é simultaneamente fragmentado e articulado. Portanto, deve ser entendido como expressão de processos sociais, ou seja, ele é reflexo da sociedade, mas também condicionante desta. Como a sociedade capitalista é profundamente desigual, desigual também é a ocupação do espaço urbano capitalista. Entretanto, a sociedade capitalista tem a sua dinâmica que também reflete no espaço urbano em forma de modificações constantes, logo ela é um campo de luta, onde diferentes classes sociais, grupos étnicos, etc, se relacionam.

Hoje mais do que nunca, essas lutas se tornam claras. As redes geográficas que se formam são as expressões mais claras desse confronto. Elas são uma forma elitista de uso do espaço geográfico. São constituídas em pontos isolados em que uma estreita faixa social ocupa esses circuitos e não se relacionam com o restante da cidade.

As pessoas que assim vivem, organizadas em redes geográficas territorializam suas vidas na cidade apenas parcialmente. Esses pontos isolados se conectam com outras partes através de linhas, por exemplo: trajeto de automóveis. Um exemplo típico de rede geográfica, como configuração do espaço geográfico são os condomínios fechados:

A palavra “fechado”, nesse caso, significa “selecionado” somente alguns podem ultrapassar seus muros. Considerando-se que os centros empresariais, de consumo (soma os shoppings centers) e os condomínios nas praias e no campo funcionam basicamente da mesma forma, conclui-se que há uma estreita faixa social que ocupa esses circuitos e não se relaciona com o restante da cidade. Circula-se de casa para o trabalho, e depois às compras, sem precisar estabelecer qualquer vinculo com o que está fora do circuito (OLIVA, GIANSATINI, 1999, p. 289).

A divisão da cidade em área por si só é um processo de segregação. O núcleo central e a zona periférica são exemplos disso. Após a Revolução Industrial acentua-se a importância do centro da cidade. As ligações da cidade com o mundo exterior a ela ampliam-se qualitativa e quantitativamente. Nesta ampliação as ferrovias tiveram um papel de destaque. Próximo à estação vão se localizar as atividades voltadas ao mundo exterior a cidade e os internos. Estas atividades fizeram com que a área ganhasse vantagens locacionais, o preço da terra e dos imóveis é ai mais elevado.

Assim, só podem dispor de seus benefícios quem pode pagar por ele. Essa realidade se mantém até a segunda metade do século XX em países desenvolvidos e subdesenvolvidos, sendo que esse processo se inicia nas décadas de 30 e 40, conforme os centros cada vez mais apresentam uma escala vertical acentuada, o que já acontecia na Idade Média, segundo Le Goff (1998), mas de forma mais lenta. À exemplo podemos observar as imagens abaixo:

Cidade do século XIV[4]

Figura 03

Fonte: LE GOFF, 1998, p. 24

Na atualidade é possível observarmos que a falta de espaço obriga de forma exorbitante á ocupação vertical.

Nova Iorque[5]

 

 

Figura 04

Fonte: <http://www.colegiosaofrancisco.com.br/alfa/historia-das-cidades/historia-das-cidades.php >: Acesso em: 10 out. 2008.

A zona periférica das cidades, por sua vez, se caracteriza por uma ampla escala horizontal. Os prédios ai construídos são baixos, sendo fortes consumidores de espaços, por isso a zona periférica estende-se por uma ampla área, o que é possível pelo fato de o preço da terra ser menos elevado que o núcleo central. Outra característica é o fato de esse espaço se constituir em uma área residencial de baixo status social.

O processo de verticalização é recente no Brasil, mas foi intenso. De modo geral, está associado ao desenvolvimento de tecnologias urbanas e se manifestam como fenômeno típico das áreas centrais. A partir dos anos 60 a verticalização assume um caráter residencial para a classe média e alta, expandindo-se para outras partes da cidade. Ainda nos anos 60, atinge a moradia popular, com os conjuntos habitacionais. Nas cidades de médio porte, embora haja plenas possibilidades de expansão horizontal, verifica-se o processo de verticalização.

Os processos de verticalização das habitações na forma de prédios geralmente são denominados de edifícios, entendendo por este, aquelas construções com quatro ou mais pavimentos. Esse processo se deve a preocupação com a racionalidade, a modernidade e, a idéia de que os apartamentos são mais seguros e oferecem maior conforto.

 A verticalização é uma forma de ocupar o espaço urbano de forma intensa, A sociedade moderna ou pós-moderna desenvolve uma cultura; para tanto vem gradativamente vendendo sua imagem bastante saudável do edifício como segurança, limpeza, localização, sofisticação, investimento, entre outros (MENDES, 2001, p. 403).

As cidades brasileiras incorporaram o padrão espacial das redes geográficas. Esse processo pode ser observado desde o final da década de 1970, quando da construção de shoppings centers e condomínios fechados e vias expressas. A fragmentação das cidades, o aumento das distâncias relativas, a desagregação e a exclusão social foram reforçados nesse processo, pelo fato de que os condôminos fechados de alta renda passaram a serem construídos nas áreas centrais.

Entretanto, como a formação do espaço urbano é mutante, como mutante são as relações sociais, a verticalização habitacional vem perdendo a preferência em várias regiões do país. Nas grandes cidades os condomínios horizontais e a construção de casas e sobrados vem se tornando cada vez mais uma das tendências verificadas nos últimos anos. As partes centrais da cidade estão perdendo o seu valor tradicional e os projetos para construção de imóveis horizontais estão sendo executados em regiões mais afastadas do centro da cidade.

Na verdade, para Oliva e Giansantini, essa é uma tendência mundial. O centro tradicional das cidades, de modo geral, estão passando por um processo de desvalorização, pois encontra maior dificuldade para corresponder aos novos modos de vida, sofrendo, por isso uma deterioração, tanto em termos de moradia, quanto do comércio e serviços, e ficando em geral, relegado às pessoas mais pobres. Desvalorizada, a região dá lugar à prostituição e ao lazer noturno marginal e de baixa renda (OLIVA e GIANSANTINI, 1999, p. 292).

O paradoxo das grandes cidades está na relação entre suas disfunções e sua economia. Quando as cidades não cumprem as suas funções geram problemas que logo servem de grandes negócios para a iniciativa privada. Um caso bastante evidente é a chamada “indústria da segurança”. O aumento da violência e da criminalidade gera o medo e a insegurança, constituindo um sério problema.

O setor imobiliário é quem mais se beneficia da ideologização da violência generalizada e do medo. Investe nos condomínios fechados – e é no caso da segurança que a palavras “fechado”ganha peso – e fez marketing dos seus equipamentos de segurança.

Pautando nos estudos do historiador Jacques Lê Goff em “Por amor as cidades” é visível que as cidades medievais deixaram muitas heranças para a ocupação urbana moderna. Ele apresenta analises que trazem a tona as principais efeitos de longa duração histórica no âmbito arquitetônico e social moderno, como os: jardins, as casas burguesas monumentais e as muralhas. As muralhas, em particular cercavam as cidades medievais e os homens armados que nela ficavam a postos com a função de velar pela tranqüilidade de todos os seus habitantes e de controlar os ataques externos. A cidade moderna também tem esse caráter, porém o medo é de inimigos internos. Os muros, hoje, protegem o lote, o pequeno feudo de cada um. Os condomínios fechados, com toda a sua sorte de aparatos de segurança se proliferam em áreas nobres bloqueando a entrada de estranhos e criando verdadeiras cidades dentro da cidade original.

De modo geral, pode ser verificado o grande processo de desenvolvimento das principais cidades da Europa, que gira em torno de aspectos econômicos e sociais. Um desenvolvimento que se acelera com a revolução burguesa, industrial e a dos meios de transportes, até tomar uma forma divergente daquela que emergiu com o renascimento urbano. Todavia, os efeitos desse modo especifico apresenta-se como permanência, no que tange a mentalidade citadina, pois, a cidade contemporânea, apesar de suas grandes transformações, está muito apresenta proximidades com da cidade medieval:

O que significa que, se pensarmos na longa duração, se formos além mesmo do caso de Paris, as funções essenciais de uma cidade são a troca, a informação, a vida cultural e o poder. As funções de produção – o setor secundário – constituem apenas um momento da história das cidades, notadamente no século XIX, com a Revolução Industrial, visível, sobretudo nos subúrbios situados na periferia. Elas podem desfazer-se ; a função da cidade permanece (LE GOFF, 1998, p. 29).

As construções das casas dos burgueses na cidade medieval eram monumentais, como são na cidade moderna as dos ricos. A permanência das Universidade, mesmo com mudanças em seu caráter institucional. As muralhas que cercavam as cidades medievais e os homens armados que nela ficavam a postos tinham a função de velar pela tranqüilidade de seus habitantes e de controlar os ataques externos. A cidade moderna também tem esse caráter de defesa, porém o medo é de inimigos internos e as muralhas que antes envolviam toda a cidade medieval, tomam forma, na cidade moderna, em cercas, grades e muros individuais (LE GOFF, 1998).

As cidades modernas que crescem em forma vertical com prédios e torres, também consistem em uma herança das cidades medievais que, cada vez mais atingia uma arquitetura vertical. Todavia, as torres na Idade Média possuíam a idéia mística de crescer em direção a Deus, já na era moderna, as torres cada vez mais adquirem o caráter de afirmação da capacidade do homem.

Analisando os aspectos sociais, as trocas nas cidades medievais eram em grande parte realizadas nos centros e praças, onde se instalavam as feiras e mercados. Também nas cidades modernas, como em Metz, o mercado anima regularmente as praças urbanas, permanecendo um lugar de bons negócios. As festas e os jogos participavam da identidade urbana medieval, enraizada na cultura camponesa. Mesmo adquirindo características mais modernas, em grande parte das cidades modernas ambos permanecem presentes.

Contudo, a medida que, as cidades medievais evoluem, também vai adquirindo aspectos distintos dos antigos, ou seja, a cidade medieval começou a ficar pequena para a crescente onda de imigrantes camponeses que iam em busca de novas oportunidades. Os antigos muros medievais começaram a torna-se obstáculos para o crescimento da cidade. Seu aspecto urbano se expande, sua população cresce rapidamente atraída pela oferta de empregos nas fábricas da Era da Revolução Industrial (LE GOFF, 1998).

A antiga cidade das muralhas se vê agora envolta no caos urbano e nas revoltas sociais. Estas urgências trazem novas idéias de cidades, mais abertas ao fluxo de pessoas e do exército, com amplas avenidas, organizadas em lotes privados e de desenho retilíneo, a exemplo das reurbanizações das cidades novecentistas de Paris de Haussmann e da Barcelona de Cerdá.

A cidade se acelera, suas pessoas andam a passos largos e apressados; a cidade é tomada pela pressa e pela velocidade. A cidade não é mais contemplativa e sim, passageira. Ela se enfeia pelo esquecimento e o acelerar da vida já anunciada nos finais do séc. XIX. Como conseqüência, a vida social começa a se interiorizar, o espaço público perde seu significado e o burburinho tem lugar agora atrás dos muros das casas, no seu interior mais requintado do que o ambiente urbano. Os muros agora protegem o lote, o pequeno feudo de cada um, dos horrores da cidade moderna.

Muros, grades e gradis adquirem sinônimos não mais do lugar sagrado de cada família, mas de um dos sintomas desta nova Era: a insegurança. A insegurança de ir e vir, a insegurança de se pisar na rua e não saber se você vai voltar para sua casa, a insegurança com seus governantes e com a polícia. Os condomínios fechados, com toda a sorte de aparatos de segurança se proliferam em áreas nobres, bloqueando a entrada de estranhos e criando verdadeiras cidades dentro da cidade original. De acordo com Floriano (2006, p. 73), “a cidade moderna conseguiu, ao pretender colocar ordem no caos urbano, acelerar a entropia social e transformar a cidade e seus espaços públicos em um imenso vazio”.

Sob um aspecto geral, após termos elucidado um breve histórico das cidades – de seu renascimento, até a contemporaneidade, torna-se interessante agora, realizar uma discussão mais aprofundada sobre as mais diversas peculiaridades que as cidades comportam como: a cidade e sua paisagem, avaliando suas determinantes estruturais e locais; a concepção de cidade-memória e cidade-documento; as perspectivas dos espaços urbanos; suas dimensões econômicas, psicológicas e culturais, até chegarmos à urbanização brasileira, esclarecendo, de forma breve, os processos pelos quais essa passou.

 

 

 

 

CAPÍTULO II

A CIDADE EM DEBATE

 

 

2.1 CIDADE COMO PAISAGEM URBANA: DETERMINANTES ESTRUTURAIS E ESPACIAIS

No que diz respeito aos espaços edificados pelo homem, uma das formas mais extraordinárias é aquela concernente ao espaço arquitetado para seu uso cotidiano, servindo para acolher seu grupo social. Tal espaço comumente se inicia na constituição de vilas, e tende a evoluir para uma paisagem, muitas vezes, estruturada no ambiente rural, até ir tomando forma em pequenas cidades, evoluindo para grandes cidades, na qual, o homem no seu dia-a-dia se habitua a um horizonte permeado por edificações que se renovam constantemente. Ou seja, “a construção de uma nova cidade gera a “construção” de uma nova paisagem” (YÁZIGI, 2003, p. 19).

Clark (1985) expõe que a cidade vista como um objeto de análise pode ser concebida de diversas formas, ou seja, como “um conjunto de imagens, ou como unidade estatística e espacial” (p.59). Ainda segundo esse autor, são essas distintas formas de abordar o espaço urbano que dão subsidio as perspectivas para a apreensão e resolução de grande parte dos problemas contemporâneos existentes na área urbana.

Acrescentando-se que as configurações de agrupamento humano não se restringem meramente a suas extensões e funções. São espaços que, sob o ponto de vista humano, se diferem em qualidade e significação.

De acordo com Ladim (2004), mesmo que a cidade possa ser vista como um horizonte geográfico, ela não é somente uma paisagem para ser vista. A cidade é composta fundamentalmente por “estruturas morfológicas, arranjos organizados de volumes e sub-parcelamentos que expressam formas de acesso e propriedade, situados em um determinado suporte físico” (p. 26). Segundo ainda essa autora, a função capital dos espaços livres é exatamente permitir o movimento na cidade, pois, os espaços livres consistem em um fator de aglutinação entre os vários tipos de espaços construídos, possibilitando com isso a compreensão e a utilização da forma urbana. Por outro lado, os espaços cheios são vistos a partir dos espaços vazios, em uma relação dialética na qual um constrói o outro.

Assim:

A cidade flui por seus espaços vazios. A cidade é o espaço da rua, vista como centro e cenário da vida cotidiana. A rua é um ponto de fixação do homem ao seu universo urbano, ponto de onde vivencia a cidade, seu espaço concreto e familiar. E essa rua, apesar de aparentemente ser um espaço bastante ordinário, dependendo de sua dimensão ou de seu calçamento, ou de seu uso, pode variar enormemente. Uma rua estreita e sinuosa, repleta de veículos, pessoas, sons e odores difere de uma avenida larga e bem arborizada. A maneira como percorremos essa rua, como pedestres ou de automóvel, a que hora do dia também nos trará uma noção diferente desse espaço. Às edificações e aos espaços livres, associam-se o suporte físico, a vegetação e os elementos de publicidade, que concorrem para a estruturação e qualificação do ambiente (LADIM, 2004, p.27-28).

Desse modo, podemos afirmar que a paisagem urbana constitui-se e caracteriza-se fundamentalmente com base nos seguintes fatores que integram o suporte físico – solo, relevo, águas, subsolo, vegetação, estruturas urbanas, o uso que se faz do solo, loteamentos, o clima. Apesar disso, a paisagem urbana não se limita somente a esses fatores, pois, “ela é uma imagem, uma criação mental e social; está na mente das pessoas, nas relações de uso que se estabelecem entre os cidadãos, e entre estes e os elementos citados. A paisagem não é formada apenas de volumes, mas também de cores, movimentos, odores e sons” (LADIM, 2004, p. 29).

2.1.1 A Paisagem urbana

Pires (2007) afirma que  à paisagem urbana é constituída de espaços concretos, que possuem funções peculiares, os quais são constantemente reconfigurados de acordo com as transformações econômicas, sociais, e culturais, políticas. Para ele, apreender a paisagem implica reconhecer os padrões dominantes que a geram enquanto imagem, modo de dominação simbólico e de mediação do olhar.

De tal modo, é possível afirmar que a paisagem urbana é um constructo humano, feito de acordo com as suas necessidades cotidianas, com suas técnicas de produção e fundamentalmente correspondendo as relações sociais e culturais estabelecidas por ele, aspectos que são variantes de acordo com cada fase pela qual a sociedade passa. Fatores que se refletem diretamente nos espaços construídos. Como ilustraremos abaixo:

Bairro Pacaembu -SP

Figura 05

Fonte: < http://www.fotosedm.hpg.ig.com.br/ >. Acesso em 28 out. 2008

Esses espaços edificados pelo homem, aperfeiçoam a sensação e a percepção humana. Ou seja, as pessoas são perceber a distinção entre exterior e interior, aberto e fechado, luz e escuridão, local público e privado (TUAN, 1983).

Assim sendo, a forma urbana pode, ser definida como um produto de forças agregadas às atividades reprodutivas e as relações de produção estabelecidas entre grupos sociais determinado. Logo, a estrutura urbana pode ser apreendida como decorrente de um processo individual, e ao mesmo tempo social, fundamentado em circunstâncias cognitivas (LYNCH, 1980).

De acordo com Galender (1994), ao refletirmos sobre a paisagem urbana, devemos primeiramente levar em consideração o desenvolvimento das ferramentas de dominação humana sobre a natureza, considerando também as condicionantes técnicas, culturais, funcionais, estéticas e atuais, colocando no desenho de planejamento os valores sociais ligados a espacialidade.

Sob um aspecto geral, a paisagem urbana que dá forma à cidade, pode ser conceituada como o espaço construído por meio das relações entre a humanidade e o meio ambiente. Desse modo, o espaço, definido como área de trabalho da paisagem, pode ser caracterizado como uma representação dessa relação entre humanidade/meio ambiente. Nesse contexto, a cidade é o maior exemplo da forma como o homem interage com o meio ambiente em que vive. Em suma, a paisagem seria fruto da soma do meio ambiente com as condicionantes culturais e socioeconômicas da sociedade.

Em detalhes:

A paisagem está associada à passagem do tempo sobre um determinado local, às percepções das formas e do mundo. Essa percepção passa pela visão que nos conduz a múltiplos processamentos de informações percebidas no meio, onde o arranjo espacial das formas que configura uma paisagem é tão importante quanto o processo cultural que lhe é apropriado. Assim, a arquitetura deve ser considerada como parte de um todo. A profusão de formas arquitetônicas que constituem uma cidade é reveladora de sua história, cultura, forma e muitas outras informações que interessam tanto ao estudioso quanto ao possível visitante (OLIVEIRA, 2008, p. 160).

Acrescentado que, para Spirn (1995) “a paisagem não é nem totalmente natural nem totalmente artificial. Ela é resultante duma transformação da natureza pelos seres humanos para servir às suas necessidades” (p.20).

Nessa perspectiva, tendo em mente que a edificação das cidades consiste em uma das maiores invenções humanas, suas formas, ao longo da história de sua existência, são indicadores do estágio de desenvolvimento das sociedades. Considerando que, seus contornos são determinados pelo grande número de deliberações adotadas pelos seus integrantes (BACON, apud LADIM, 2004).

Mas, não somente isso, Pereira Leite (1994), elucida que a paisagem é fruto da estabilização entre muitas forças e processos temporais e espaciais. Assim, a paisagem passa a ser concebida como uma representação da visão social de um sistema produtivo. Sendo que, suas formas findam por se transformar ou desaparecer quando as filosofias, teorias, e necessidades que as geraram, deixam de ser reais ou manifestas.

Mediante todos esses apontamentos acerca da cidade como paisagem urbana e, suas determinantes estruturais, fecharemos essa discussão expondo algumas definições interessantes construídas por Ladim (2004).  Segundo essa autora, a cidade, tanto pela paisagem, como para quem vive nela, “é uma fonte de percepção por meio dos elementos que a compõem” (p. 31). Em outras palavras, a cidade é resultante da atuação da sociedade sobre um meio físico (natural). À medida que o espaço urbano é produzido e utilizado, este começa a se configurar em uma espécie de representação, na qual a própria sociedade passa a ser representada, trazendo à tona “sua história, sua cultura, seu meio de produção, seu estágio técnico e tecnológico, a divisão de classes, a luta pelo poder, entre outros fatores” (p. 31). Tudo isso se encontra representado no espaço de configuração da cidade. Dessa forma, as cidades evoluem e se transformam, conforme as sociedades evoluem e se transformam ao longo da história, como também, se transformam as condições físicas na superfície do planeta.

Destarte, tendo em mente que as cidades evoluem com base na evolução das sociedades, estudar a historicidade das cidades, é conhecer como se desenvolveram e como era a sociedade de determinado período, ou seja, é ir além dos conhecimentos acerca das espacialidades físicas se entendendo a espacialidade cultural, aos valores e ideologias presentes em dadas esferas da vida humana. Assim, podemos perceber a acuidade em se estudar as cidades, percebendo algumas tendências atuais apontadas por Soller e Matos (2000), como: cidade-questão; cidade-memória; cidade-documento.

2.2 PERSPECTIVAS DE ESTUDO: CIDADE-MEMÓRIA E CIDADE-DOCUMENTO, CIDADE-QUESTÃO.

De acordo com Soller e Matos (2000), o tempo da nossa história é acelerado marcado por transformações, destruições e reconstruções, contrastando com outros períodos, permanências, continuidades, e principalmente da memória. As inquestionáveis transformações que podem ser vistas na contemporaneidade direcionaram os historiadores (e outros profissionais) a se debruçarem sobre os estudos da memória, e isso tem causado impactos no campo da histórica, expandindo as inquietações sobre o cotidiano humano e fomentando pesquisas ligadas ao urbano.

Essas mutações no campo da história enfatizando a memória é um grande passo no sentido de recuperarmos a historicidade das cidades (seja por meio de fotos ou outros documentos). Isso porque, para Lê Goff (2003), “a memória como propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode utilizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas” (p. 419).

Nessa direção, é perceptível na contemporaneidade a emergência de muitas preocupações com o descobrimento de “outras histórias” que têm beneficiado as pesquisas sobre as cidades e sobre o cotidiano urbano. Esses estudos têm contribuído para renovar muitas temáticas e princípios metodológicos, conforme redefine os conhecimentos tradicionais e levantam novos questionamentos, permitindo a recuperação da memória da experiência cotidiana das várias esferas sociais. Nesse quadro de mudanças no campo historiográfico, localiza-se a ampliação dos estudos acerca do urbano.

Para Matos (2000), nos últimos 20 anos, no Brasil, os estudos voltados ao urbano atravessaram modificações expressivas. Antes a cidade era concebida somente como um elemento de demarcação espacial do objeto de estudo do historiador, não sendo seu próprio objeto de estudo, de questionamento, ou problemática.

Todavia, as transformações ocorridas nas cidades (industrialização extraordinária, adoção de tecnologias nos mais variados setores, etc) se tornaram um desafio ao trabalho do historiador. Esse, ao analisar o passado mais recente, na busca por construir uma História do Tempo Presente, adota também as novas tecnologias para registrar o desenvolvimento urbano, e até criar sua própria fonte documental (ex: máquinas fotográficas digitais) ligadas aos espaços urbanos.

Nessa direção, a cidade deixa de ser somente o foco de uma demarcação meramente espacial do objeto de estudo do historiador, para se tornar o seu próprio objeto de pesquisa, se tornado aquilo que Matos (2000) definiu como: cidade-questão. Lembrando que para essa autora, desde os finais do século XIX, já começou a emergir os primeiros delineamentos da cidade enquanto questão, por meio de preocupações que giravam em torno de problemas higiênico-sanitarista. Assim, gradativamente, “a problemática da cidade surgiu enquanto questão — a “questão urbana” —-, atravessada pelos pressupostos da disciplina e da cidadania e passando a ser reconhecida enquanto palco de tensões” (p. 08). Ainda de acordo com essa autora, no processo de investigação histórica é imperativo atentar para a composição da cidade-questão em uma análise que busque reconstruir a historicidade desse processo e não meramente repetir os discursos legitimadores presentes nessa. Logo, “pensar a noção de urbano e os adjetivos sobre a cidade como categorias instáveis permite recuperar a historicidade da cidade tornando-a questão e objeto de análise” (p. 08).

Quando pensamos a cidade relacionada a memória, é possível afirmar que as tensões cotidianas, as festas, as construções, os espaços, tudo isso integra o campo da cultura. De uma cultura social, que pertence a determinado povo ou nação, logo, ao reconstruirmos a memória de uma cidade, paralelamente, estamos reconstruindo a de determinada sociedade, uma vez que, abordamos anteriormente que a cidade é um construto social com a finalidade de proporcionar conforto às pessoas que dela fazem parte, e é nela que a teia de relações sociais torna-se complexa.

Bosi (1987) contribui com essa discussão, à medida que, aponta que as tensões urbanas se constituem enquanto representações espaciais que esboçam paisagens em freqüente movimento, no qual, os esquecimentos e vazios arquitetam redes simbólicas distintas de poder.

Ainda segundo essa autora, vários discursos edificam uma representação e ao mesmo tempo uma realidade, de um lugar para se viver, rezar, trabalhar, divertir-se, observar, estabelecer laços étnicos e comunitários, instituir espaços de sociabilidade e harmonia, nos mais variados campos da vida humana. Calvino (1991) acrescenta que, as pesquisas históricas precisam percebem as cidades como territórios que moldam experiências coletivas e pessoais, devendo passar a ser vista como a história da espacialização do tempo e das opções coletivas.

Para uma melhor compreensão:

Em sua transformação, a cidade tanto pode ser registro como agente histórico. Nesse sentido, destaca-se a noção de territorialidade, identificando o espaço enquanto experiência individual e coletiva, no qual a rua, a praça, a praia, o bairro e os percursos estão plenos de lembranças, experiências e memórias. Lugares que, além de sua existência material, são codificados num sistema de representação que deve ser focalizado pelo pesquisador, ao investigar os processos de territorialização, desterritorialização e reterritorialização. Assim, a cidade passou a ser objeto de pesquisa, aparecendo como construção problemática de algo a ser decifrado pelo historiador que se depara com multiplicidade de histórias e memórias. Que cidade? A dos antepassados? A dos heróis e/ou dos vilões? A dos donos do poder, de ontem e de hoje? A cidade dos eruditos e dos historiadores, dos urbanistas/planejadores/tecnocratas? A do homem da rua e daquele que com suas mãos a constrói? (MATOS, 2000, p. 10).

Para essa autora, a cidade é documento. Mas como ver uma cidade como documento? De acordo com ela, a paisagem urbana se impõe como um documento que pode ser como um texto que pode ser decodificado. Assim sendo, é tarefa do investigador apreender essa complexidade de tempos-espaços e memórias, recuperando as classe e as relações entre elas, decodificando seus enigmas. Desse modo, a pesquisa empírica é fundamental no campo dos estudos acerca das paisagens urbanas, porque essas são capazes de descobrir o processo de constituição das cidades, como também das tensões existentes dentro dessas, avaliando as mudanças pelas quais passaram até chegarem ao estágio atual.

2.3 URBANIZAÇÃO BRASILEIRA

Segundo Deak (2004), o Brasil, em um curto espaço de tempo, passou de um país predominantemente agrário, para um país potencialmente urbanizado. Desse modo, “o grande ciclo de expansão da urbanização no Brasil é relativamente recente. O seu início se articula com um conjunto de mudanças estruturais na economia e na sociedade brasileira, a partir da década de trinta do século vinte” (BRITO, 2001, p. 01).

Em 1950 o Brasil já:

[...] tinha uma população de 33 milhões de camponeses – em crescimento- com 19 milhões de habitantes nas cidades, ao passo que hoje tem a mesma população no ‘campo’ – agora diminuindo – e a população urbana sextuplicou para mais de 120 milhões. É claro que transformações quantitativas de tal magnitude implicam transformações qualitativas profundas. O país, se não está inteiramente ‘urbanizado’ tem seguramente caráter preponderantemente urbano. As condições de produção nas áreas urbanas – nas ‘cidades’ – são agora as da virtual totalidade da economia, e as condições de vida nas aglomerações urbanas constituem a base e o palco das transformações futuras da sociedade e também de sua economia (DEAK, 2004, p. 11).

Percebe-se então nas idéias dessa autora, que no Brasil houve um impacto da urbanização e do planejamento. Em detalhes, o processo de urbanização brasileira ocorreu de forma intensa e veloz, principalmente no último quartel do século passado. Com esse ritmo o processo de urbanização atingiu uma escala tão alta que começou a exigir ações por parte do Estado gerando alterações na administração pública. Surgia então a necessidade do planejamento urbano.

No ano de 1970, os dados censitários informaram que, no Brasil, já havia uma população urbana superior à rural. Lembrando que, as cidades já faziam parte da do panorama social do país desde o período colonial, mesmo com uma limitada dimensão demográfica (BRITO, 2001).

Assim, na década de 1960 e início da de 1970, as questões acerca da urbanização tiveram um duplo estímulo:

[...] no plano das idéias, a produção efervescente da reconstrução pós-guerra, principalmente na Europa; e, no plano material, o reconhecimento governamental de que o processo de rápida urbanização em curso, que alcançava o Brasil, era definitivamente uma das transformações fundamentais da sociedade brasileira e requeria intervenção estatal, consagrando precisamente o que se denominou planejamento urbano (DEAK, 2004, p.13).

Esse processo de urbanização brasileira se expandiu extraordinariamente a partir de 1970, atingindo um grau de urbanização superior a 80% em 2000, como podemos ver no gráfico abaixo.

 

 

 

Figura 06

Fonte: (BRITO, 2001, p. 03).

Monte-Mór (2003), expõe que a urbanização brasileira, depois de cinco décadas em aceleração, apresenta na atualidade novas espacialidades e dinâmicas que fazem jus a atenção e debate, conforme apontam para uma natureza diferente da produção e disposição do espaço rural, urbano e regional no Brasil (Figura 07).

São Paulo – Centro

Figura 07

Fonte: < http://br.geocities.com/agsts2/SPSaoPaulo5.jpg >. Acesso em 21 Out.

Assim, para Monte-Mór (2003) o Brasil alcançou um grau de urbanização superior a 80% em 2000, deve esta média elevada tanto aos saltos percentuais de concentração de população urbana nos seus estados mais populosos e desenvolvidos quanto à intensa urbanização nas regiões de fronteira do Centro-Oeste e Norte. Assim sendo, “ainda que a taxa anual média de crescimento urbano tenha sistematicamente se reduzido no Brasil nas últimas décadas, os novos padrões de urbanização tanto reforçam a concentração populacional em áreas cornurbadas quanto promovem a desconcentração sobre cidades médias e pequenas” (MONTE-MÓR, 2003, p. 260).

Acrescentando que,

Pode-se assim identificar um duplo padrão de urbanização no Brasil, já manifesto em décadas anteriores, mas ora apresentando nova natureza e organização sócio espacial. De um lado, um adensamento regional e uma concentração populacional em grandes e médias áreas urbanas, principalmente em regiões metropolitanas e na região Centro-Sul como um todo. A concentração da riqueza e da pobreza nas regiões metropolitanas aprofunda conflitos e confrontos de classes, enquanto a desconcentração urbano-industrial sobre cidades médias, e mesmo cidades pequenas vizinhas, os estende potencialmente a toda a rede urbana principal do país. De outro lado, a extensão da urbanização sobre amplos espaços regionais por meio das redes de transportes, comunicação e serviços integra as múltiplas e distintas espacialidades e (re)qualifica as relações urbano-rurais, mudando a natureza da urbanização no Brasil. Não se trata mais apenas da urbanização em cidades e vilas. O tecido urbano se expandiu para além das cidades, gerando e integrando centralidades e periferias urbanas diversas, enquanto estende as relações de produção (capitalistas) urbano-industriais por todo o espaço nacional. A partir dessa nova urbanização, ao mesmo tempo concentrada e estendida, articulam-se ações políticas, locais e distantes, em processos de competição e cooperação cada vez mais complexos e plurais, tanto internos quanto entre centros e regiões urbanas (MONTE-MÓR, 2003, p. 260).

Nessa perspectiva, o grande processo de urbanização crescente tem moldado uma espécie e urbanização extensiva, que tem avançado extraordinariamente sobre a área rural, a exemplo, podemos citar os grandes loteamentos localizados próximos as cidades.

Mediante tais apontamentos, estudar como se deu esse processo de urbanização brasileira é interessante para que possamos conhecer a história da nossa própria sociedade. Contudo, para que o historiador possa, na atualidade, estudar a paisagem urbana, ele precisa, em grande medida, trabalhar com imagens. Imagens que tem como suporte a fotografia, que é uma das fontes documentais fundamentais ao trabalho do historiador.

Nessa direção, analisaremos no capítulo seguinte a importância do uso da fotografia como forma de registrar e documentar os processos históricos que envolvem a memória da cidade. Tudo isso, considerando que a imagem é uma fonte fundamental no trabalho de reconstrução de uma memória histórica. Nessa perspectiva, realizaremos um estudo as principais características da fotografia, e a sua importância como documento histórico. Elucidaremos alguns enfoques sobre a urbanização brasileira fotografada.

 

 

 

 

 

 

 

CAPITULO III

FOTOGRAFIA E AS IMAGENS DA CIDADE

 

3.1 AS IMAGENS COMO MEIO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

As imagens na comunicação de massas são transmitidas em forma de textos culturais, contendo a representação de um mundo real, incluindo a própria imagem do espectador. Assim, os textos se revelam ao leitor como sua própria imagem. Em outras palavras, os textos visuais são, antes de tudo, um jogo de diversos componentes formais e temáticos que obedecem a regras e estratégias precisas durante sua elaboração (VILCHES, 1992, p. 07).

Verifica-se então que, a criação imagética tem por base um envolvimento em um contexto sócio-cultural que consiste em dar forma a alguma idéia, como necessidade dos processos criativos que são inerentes ao homem, com a finalidade de estruturar uma linguagem formal. Dessa forma, o criador de uma imagem quase sempre objetiva comunicar o que pensa ao receptador (público), e para isso ele se apropria de signos presentes em sua cultura e a do receptor, para facilitar a decodificação da imagem por este ultimo.

Assim, as imagens passam a estabelecer um diálogo, uma linguagem entre criador e o receptor, pois, “na medida em que se atribui a missão de comunicar, o artista precisa se servir de alusões ao que os outros podem conhecer ou reconhecer” (HUYGHE,1986, p. 24). Para tanto a imagem precisa de recursos para adquirir forma, como a gráfica ou plástica, já que sua função fundamental é a de estabelecer comunicação entre os homens, e isso ocorre das mais variadas formas, dentre elas a fotografia.

Ao considerar que a imagem é uma representação que toma forma em traços e cores, verifica-se que ela corporifica um modo de ver. “Todavia, a percepção do espectador e a apreciação de uma forma imagística vão depender da interpretação do próprio modo de ver de cada pessoa, seja do criador da imagem, seja daquele que aprecia a sua representação” (BERGER, 1987, p. 54). Ou seja, o principio que irá definir a interpretação de uma imagem está centrada na cultura do indivíduo, nos símbolos que ele conhece e reconhece.

Nessa direção, “ao visualizar uma imagem, a pessoa faz uso de informações recolhidas da própria experiência e da de outros” (FRANCASTEL, 1987, p. 63). Com isso, o mecanismo da percepção imagética poderá ser constituído das relações fragmentárias, das pluralidades situadas na memória individual e coletiva tanto do artista, como do espectador, para que a percepção da imagem repouse não apenas no processo de reconhecimento, mas de compreensão e interpretação.

Michel Vovelle salienta o grau de importância em se analisar a imagem, à medida que, expõe um “Poder impiedoso da imagem, que nos remete, sem complacência, o reflexo não tanto da realidade, mas da maneira como ela foi representada: adornada, embelezada ou escamoteada [...]” (VOVELLE, 1997, p. 134). Nesse sentido, se faz importante o uso da fonte imagética (no nosso caso, a fotografia) para compreender a representação que determinada sociedade possuí em relação aos seus costumes, a sua cultura.

Mais especificamente, considerando o campo da semiótica, Emile Benveniste (apud SANTAELLA e NÖTH, 1999), define as imagens como um “sistema semiótico” despossuída de uma metassemiótica: à medida que a língua, com sua peculiaridade metalingüística, é capaz de se auto-servir como meio de comunicação sobre si mesma, se convertendo em um discurso auto-reflexivo. Já as imagens não são capazes de se servir como meios de reflexão sobre imagens. Assim, o discurso verbal é imperioso ao desenvolvimento de uma teoria da imagem. Com isso, o código verbal não é capaz de se desenvolver sem imagens. E o nosso discurso verbal está cheio de imagens, (ou iconicidade, como Peirce diria).

Outra definição interessante de “imagem” vem de Vilém Flusser (2002). Para ele, as imagens correspondem a superfícies que buscam representar alguma coisa. Como algo que se localiza externamente no espaço e no tempo. Logo, para ele, as imagens são resultantes do empenho na abstração, ou seja, a sua origem tem sua raiz na capacidade de abstração chamada de imaginação. Para esse autor, as imagens possuem uma peculiaridade mágica. Tal peculiaridade é elementar no processo de compreensão de suas mensagens. Em outras palavras, as imagens são códigos que manifestam acontecimentos em determinadas circunstâncias. Elas não são suficientes para eternizar eventos, mas são capazes de substituir eventos por cenas. “E tal poder mágico, inerente à estruturação plana da imagem, domina a dialética interna da imagem, própria a toda mediação, e nela se manifesta de forma incomparável” (FLUSSER, 2002, p. 08). Dessa forma, um dos suportes mais comuns da imagem na atualidade é a fotografia.

No que tange as imagens de uma cidade, essas são construídas da justaposição de imagens, algumas globalizantes outras mais perto do fragmento, objetivas e subjetivas, isto é, de imagens percebidas e imaginadas. A imagem urbana é um desafio visual da percepção que a registra, surpreendendo-a nos seus elementos distintivos: cores, formas, texturas, volumes, localização, movimentações, tempo histórico, etc. O que será que uma fotografia pode contar sobre uma cidade nos limites do seu enquadramento? (FERREIRA, 2007).

3.2 FOTOGRAFIA COMO FONTE DOCUMENTAL: SENTIDOS E SIGNIFICADOS

 

Correa (2005) expõe que a fotografia surgiu no século XIX e sua invenção em muito contribuiu para a preservação da memória. Graças a ela tomou-se possível o registro de cenários, pessoas, acontecimentos com muito mais precisão e abrangência do que a memória escrita poderia fazer. Sua origem remete ao desejo do indivíduo em conservar a imagem do real sob determinados aspectos, tempos e espaços. Ela simboliza a busca do homem pela materialização da imagem observada e os resultados que permeiam sua produção revelam a ação de um sujeito, que teve sua atenção voltada para um assunto específico, em determinado espaço e tempo.

Segundo FERREIRA (2007):

A fotografia é um documento que serve para ver o mundo e interpretá-lo, é um instrumento de conhecimento e história ao fornecer informação sobre os objectos, os lugares ou as pessoas e preservá-las no tempo, inseparáveis das funções da memória e da imaginação. Desse modo, numa sociedade em que a maior parte da informação nos chega por imagens – na sua maioria de natureza fotográfica -, torna-se necessário reflectir acerca de como podem as linguagens actuais da fotografia narrar e representar constituindo aquilo a que se chama imagem contemporânea da cidade (p. 2399).

Para, Kossoy (1979), a imagem captada na fotografia consiste em um “testemunho visual” do que aconteceu para aqueles que se encontravam ausentes da cena. A fotografia é referência do acontecido e o que resta dele, é um fragmento congelado do instante passado a caracterizar a interferência do fotógrafo nesse instante.

Nesse processo de produção da imagem, o fotógrafo escolhe um fragmento do real e elege o aspecto sob o qual essa parte será materializada na fotografia. A imagem selecionada passa por um filtro cultural e esse filtro está implícito na fotografia e se produz de acordo com a ideologia e o estado de espírito do homem ao registrar a imagem. Por conseguinte, ao se analisar uma fotografia, é necessário levar em conta que há um inevitável entrelaçamento entre fotógrafo, câmara e assunto, que irá sempre trazer diferentes visões do real, ou seja, o aspecto da imagem escolhido pelo fotógrafo está intimamente relacionado a sua subjetividade (CORREA, 2005).

Segundo Kossoy (1979), essa subjetividade é proveniente de sua bagagem cultural, seu grau de sensibilidade e criatividade, inseridas em determinado momento histórico-social. A soma desses fatores subjetivos encontra-se presentes no processo de produção da imagem fotográfica, pois são os responsáveis pela motivação ao fotógrafo em registrar determinada imagem. Logo, a fotografia será sempre produzida conforme a visão de mundo de seu autor, uma vez que toda fotografia consiste em um testemunho segundo um filtro cultural, ao mesmo tempo em que é uma criação a partir de um visível fotógrafo. Toda fotografia representa o testemunho de uma criação.

Assim, não podemos negar que a fotografia também, além de ter sua face subjetiva, também tem a objetivo, ou seja, a objetividade da fotografia dá-lhe “uma força de credibilidade ausente em toda a obra pictórica. Sejam quais forem as objeções do nosso espírito crítico vemo-nos obrigados a acreditar na existência do objeto representado, efetivamente reapresentado, isto é, tornado presente no tempo e no espaço” (BAZIN,1992, p19).

A fotografia testemunha a visão de mundo de quem a criou e as condições sob as quais foi produzida. Neste sentido, um estudo acerca dos elementos implícitos na imagem fotográfica pode proporcionar aos espectadores dados importantes sobre o lugar e tempo de sua criação, permitir um melhor entendimento dos motivos pelos quais determinada imagem foi privilegiada, a freqüência de sua utilização como fonte pata o estudo da história de determinado lugar, entre outros aspectos possíveis de serem estudados e que permeiam a produção da imagem (CORREA, 2005).

Dessa forma, Kossoy (1998) define a fotografia como “uma representação elaborada cultural/estética/tecnicamente e embora os fatos contidos no registro fotográfico estejam inseridos num contexto real, não podem ser compreendidos de forma isolada, desvinculados do processo de construção da representação” (p. 43).

Destarte, Correa (2005) acrescenta que, o autor da imagem, assim sendo, tem uma função decisiva na sua produção, e ao se tomar uma imagem fototográfica como fonte para a pesquisa, deve-se levar em consideração as subjetividades contidas no documento fotográfico. Essa questão permite perceber que o ato fotográfico não se resume a um “clic” e que a fotografia não é somente um documento que mostra uma imagem “irreversível”, “congelada”, mas é também um documento que nos informa acerca de seu autor, o fotógrafo, e da tecnologia por ele usada.

De modo geral, podemos afirmar que a produção da imagem fotográfica está relacionada diretamente à subjetividade do autor desta. Logo, para compreender tal documento de modo mais amplo, é necessário a construção de um estudo dos aspectos que circundam a vida do fotógrafo, sua conduta individual e social, como também uma análise conjuntural de sua obra, para que seja possível considerar que tipos de imagens foram escolhidas por ele e porquê essas imagens em detrimento de outras.

Isso implica considerar também a finalidade para a qual a imagem foi produzida. A atividade fotográfica muitas vezes se constitui na única fonte de renda para o fotografo. Não raras vezes, sua sobrevivência depende, diretamente, de sua habilidade técnica e criativa, com isso o objetivo de seu trabalho passa a ser a busca pela satisfação dos clientes, o que o leva a empregar todos os recursos possíveis na produção da imagem fotográfica visando atender às expectativas daqueles que solicitaram a fotografia (CORREA, 2005).

Pode ser constatado também que as imagens fotográficas também registram os interesses daqueles que contrataram os trabalhos dos profissionais e deram as diretrizes de como a fotografia deveria ser apresentada.

Como podemos ver em Kossoy:

Desde cedo os governos, assim como as grandes empresas comerciais requereram a presença do fotógrafo para que este documentasse seus feitos, suas realizações. As paisagens das áreas urbanas e do campo, a natureza, os tipos humanos em seu habitat natural, os conflitos sociais e as guerras foram registrados pela fotografia; melhor dizendo: nem todos os fatos, ou apenas os que interessavam para determinados grupos, num dado momento, o foram (KOSSOY, 1998, p. 46).

Além do mais, pesam sobre o processo de produção da imagem a censura e a necessidade que os órgãos oficiais sentem em amenizar o impacto que determinadas imagens provocam sobre a população de determinada região. Todos esses elementos encontram-se presentes nos registros fotográficos de um acontecimento, e ao se analisar uma fotografia é necessário atentar para o fato de que essa imagem já passou por inúmeras interferências que alteraram sua informação primaria.

Observandodo estudos sobre de acervos fotográficos utilizados para a recuperação da história de determinados espaços, percebe-se que muitos fotógrafos privilegiaram o tema da cidade e da urbanização. A fotografia, como meio de expressão visual, foi desde o início investida da função documentária, científica, arqueológica e histórica (MONDENARD, 1999).

Choay (1999) expõe que, desde muito cedo, pintores, litógrafos, fotógrafos e cineastas, olharam continuamente para as cidades e buscaram meios de representá-las. Na modernidade a fotografia se tornou o principal meio de registrar a memória das cidades. Por outro lado, também os fotógrafos passaram a se interessar cada vez mais pela cidade moderna e passaram a acompanhar as modificações urbanas através do registro fotográfico.

A partir de então, os fotógrafos também passaram a ser requisitados pelos órgãos oficiais para documentar trabalhos e valorizar as remodelações urbanas realizadas pela administração publica.  Assim, cada vez mais a cidade passou a ser objeto dos olhares e dos registros fotográficos, pois, “a transformação da cidade em metrópole se opera nos termos das rápidas mutações. A fotografia aparece como a única capaz de seguir o ritmo destas transformações. Ela é uma testemunha privilegiada para conservar a memória de tudo que, sucessivamente dá um novo rosto à cidade” (MONDENARD, 1999, p. 110-111).

Historicamente, desde o século XIX (para sermos mais coretos poderíamos dizer desde o séc. XVI altura das primeiras invenções relativas à parte óptica do processo fotográfico – a câmera obscura), que a fotografia e a cidade caminham lado a lado. O século XIX também assistiu ao surgimento do flanêur e à gradual consideração da cidade como paisagem. De uma perspectiva teórica, tanto a fotografia como a cidade podem ser olhadas como mecanismos semióticos que se auto-representam através de uma multiplicidade de objetos. Se a cidade é múltipla nos seus aconteceres e haveres, múltiplas leituras também se impõem a ela. Uma dessas leituras possível é a realizada pela fotografia. (FERREIRA, 2007, p.2399).

Nessa direção, de acordo com Correa (2005), no decorrer das transformações urbanísticas que marcaram o final do século XIX e início do XX, os fotógrafos são testemunhas das mudanças, ao serem convocados a registrar as alterações estruturais e rápidas vividas no espaço urbano. Nesse contexto de modificações norteadas pelos ideais de progresso e modernidade, produzem imagens das capitais européias, registrando as Transformações ocorridas na cidade. Também no Brasil a cidade tornou-se tema de vários trabalhos. Fotógrafos brasileiros — e alguns estrangeiros, captaram as imagens urbanas sob a perspectiva das Transformações modernizadoras. Essa produção documental permite uma ampla análise não só das transformações ocorridas no espaço urbano ao longo dos anos, mas também dos elementos subjetivos implícitos no trabalho de cada fotógrafo, das finalidades para a qual a imagem foi captada.

 

3.3 FOTOGRAFIA E AS CIDADES BRASILEIRAS

 

No que diz respeito à fotografia relacionada as cidades brasileiras, um dos trabalhos mais notórios é o de Magalhães e Peregrino (2004) intitulado “Fotografia no Brasil: um olhar das origens ao contemporâneo”.

Nesse trabalho:

No Brasil do século XIX, os fotógrafos profissionais souberam tirar vantagens de um ofício ainda pouco difundido, promovendo uma ampla publicidade em torno da produção de imagens panorâmicas e de vistas estereoscópicas de distintas localidades. Ao ganharem ampla aceitação na sociedade e atraído a atenção de um público mais ilustrado, as paisagens topográficas eram vistas como uma ferramenta de investigação por instituições e cientistas que buscavam elementos para o mapeamento geográfico, geológico e arqueológico das diversas regiões. A partir de 1853, novas técnicas passam a ser utilizadas pelos daguerreotipistas, que começam a incorporar processos como o da albumina, ambrotipia e calotipia, que possibilitam um manuseio mais seguro e rápido na produção e revelação das imagens, o que facilitará a execução de fotos paisagísticas (MAGALHÃES e PEREGRINO, 2004, p. 28).

Ainda de acordo com essas autoras, foi nesse momento, também, que a denominação de fotógrafo passa a vigorar de uma forma mais ampla, substituindo o nome de daguerreotipista, usualmente aplicado a esse ofício. Fotógrafos de diversas nacionalidades – alemães, franceses, ingleses, suíços, entre outros – por aqui aportaram desvelando um novo mundo que se alicerça em torno da descoberta da alteridade: a relação com o outro e tudo o que compõe o mundo da geografia e o da história, nas suas dimensões mais amplas e universais. Em um período de quase duas décadas, entre 1847 e 1864, o crescimento da atividade fotográfica no Brasil foi significativa, triplicando-se o número de profissionais. Assim, a apreciação estética da paisagem através da fotografia permite que o espectador torne-se um fruídor do espetáculo da natureza.

Ao final do século XIX, as cidades brasileiras haviam sido fotografadas por diversos autores estrangeiros e brasileiros com imagens que enfocam os grandes edifícios públicos e particulares, tratando de uma produção que reflete o ideário progressista em harmonia com as discussões realizadas nessa época sobre o atraso e o progresso das cidades brasileiras. Nas fotos, a imponência dos grandes monumentos e a verticalidade dos prédios despontam como signos do crescimento urbano e da organização social, que vão substituindo, gradativamente, os traços da arquitetura coIoniaI. Nessa perspectiva, o centro da cidade se destaca no contexto da produção de fotografias urbanas, sendo explorado ainda por panorâmicas que, além de trazerem uma visão grandiosa e idealizada, funcionam como uma metáfora da expansão econômica da era oitocentista (MAGALHÃES e PEREGRINO, 2004).

Nessa direção, segundo essas autoras citadas acima, muitas paisagens urbanas foram reunidas em postais e álbuns fotográficos, que mostravam a natureza, a cidade, os costumes e a etnografia própria das regiões brasileiras. A propagação e comercialização desses novos suportes permitiram ao leitor viajar imaginariamente por cidades de todo o mundo, desfrutando de um espetáculo visual que a grande maioria não teria oportunidade de vivenciar em sua plenitude. A fotografia era e é, capaz de apreender o passado e o presente com extrema precisão.  No século XX, a fotografia se tornou um dos símbolos da modernidade. Como uma linguagem realista, ela coliga os valores cosmopolitas de uma nação cujos modelos civilizatórios estão principalmente calcados em Londres, Paris e Viena.

Na atualidade, vivemos a era tecnológica e digital. Nesse momento, a fotografia a cada dia se torna mais desenvolvida, contando com qualidade de cores e nitidez nunca vistas antes. Mas, não somente isso, o trabalho dos designers não somente fazem com que a qualidade desta melhore ainda mais, mas também, com que mude uma foto da forma que quiserem.

Desse modo, se por um lado, podemos ver avanços substanciais na qualidade das imagens fotográficas, por outro, precisamos redobrar o cuidado ao analisar a fotografia, pois, os recursos que a informática oferece possibilitam que ela seja manipulada de acordo com o interesse do fotografo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Mediante tudo que foi apontado até aqui, podemos afirmar que, para reconstruirmos a história de uma cidade por meio da reconstrução de sua memória, podemos contar com um instrumento de trabalho de grande valor, que é a fotografia. Mas, para que estudar a paisagem de uma cidade? Porque é na paisagem da cidade que se materializam a memória coletiva.

De certa forma, a paisagem citadina constitui-se como uma espacialização da memória, como um conjunto fundamental ao desenvolvimento da investigação no campo da história, à medida que todo acontecimento, fato, e/ou evento, estão atrelados de forma indissolúvel ao lugar onde o mesmo aconteceu.

  Além disso, é possível percebermos que o sentido de lugar e a experiência da paisagem urbana são claramente temporais, compostos de lembranças, de ambientes impregnados de sensações, de sentidos, nos quais os pontos citadinos são marcados profundamente pelas relações modeladas pelas coletividades às quais pertencem. Logo, é possível apreender que o espaço urbano carrega um importante significado material e simbólico respectivo á vida humana, a seus processos de desenvolvimento, a sua história de vida.

Desse modo, quando pensamos os estudos acerca das cidades brasileiras, é possível perceber que, sobre elas há muitas coisas escritas. Contudo, muito está por ser escrito. Isso porque, todas as vezes que olhamos para uma cidade, novos perceptivas são oferecidas ao nosso olhar, ou seja, novas curvas, novas edificações, sempre em uma mudança constante. Logo, se as cidades mudam rapidamente (na sociedade contemporânea), da mesma forma devemos mudar o nosso olhar que sobre elas recai, e, nessa perspectiva, como a fotografia consiste em uma forma de obter registros que servem como fonte documental acerca das cidades, é a partir dela que poderemos reconstruir a memória das cidades.

Ressaltando a fotografia é portadora de um discurso, conforme pode exprimir um instante carregado de intencionalidades. Possui, por conseguinte, uma finalidade documental que pode ser considerada como meio de expressão, informação e mesmo de representações de determinados espaços e urbanos e consequentemente da memória social.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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[1]“Sede do papado no século XIV, Avignon reúne o palácio dos papas, uma profunda profusão de igrejas e a ponte Saint- Bénezet sobre o Reno, chamada de Ponte de Avignon. A muralha separa a cidade, lugar de civilização luminosa, e o campo lugar de rusticidade tenebrosa. O autor Pierre Salmon, a caminho da cidade papal de Avignon. Iluminura extraída de Résponse à Charles VI et lamentation au Roi sur son état, de Pierre Salmon, 1409. Paris, Biblioteca Nacional da França” (LE GOFF, 1998, p. 119).

 

[2] “Na Idade Média, o castelo, lugar de poder econômico e político, domina a sociedade camponesa. E muitas vezes contra o poder senhorial que a cidade afirmará sua independência e, depois, sua influência sobre o campo ao redor. Lavouras diante do castelo de Lusigan (detalhe do calendário, com zodíaco, mês de março). Iluminura extraída das Très riches heures Du duc de Berry, de Pol Limbourg, século XV (manuscrito 65/1284, f. 3 v. ) Chantilly, Museu Condé” (LE GOFF, 1998, p. 12).

 

[3] Marginais no sentido de estarem a margem da sociedade, e ter outros valores sociais.

 

[4] Iluminura extraída das Chroniques de sire Jean Froissart,  século XIV (manuscrito francês 2643, f. 1). Paris, Biblioteca Nacional da França (LE GOFF, 1998, p. 24).

[5] Nova Iorque, uma das cidades mais influentes na economia mundial.